Sem alarde,
E devagarzinho,
se vai a tarde
bem de fininho.
Põe-se a luz,
por entre montanhas.
Quase nada mais reluz,
começam algumas façanhas.
Uma se vai,
com seu vestidinho curto,
a outra atrás
vestida como matuto.
De matuto nada tem
É até esperta demais.
Se faz de boba como convém
E passa a todos prá trás.
Assim como à tarde,
Pela estrada lá se vão elas.
Sorridentes e sem alarde,
Parecem em passarelas.
Quem as conhece da vida,
Nem lhes olha direito.
Parecem possuir feridas
Que lhe cobrem todo o peito.
Mas feridas no corpo não tem,
As feridas são escondidas.
A alma é que as contem
E sangram muito na vida.
Vão trabalhar,
Garantir algum sustento.
As vezes até apanhar,
Pelo leite do rebento.
Na volta depois da labuta,
O corpo está muito cansado.
Afinal nesta vida que desfruta,
Não tem nada de engraçado.
Por momentos ela é o brinquedo.
Boneca é o que ela é.
Já vive muito cedo
Esta vida de mulher.
Homem sem escrúpulo
que acha que a vida é isto.
Falando somente o chulo,
Pensando no paraíso.
Mas mesmo com tudo isto,
Com a alma no chão vendida.
Elas ainda tem tempo,
De um sorriso de despedida.
Voltam para aquilo que chamam de lar,
Para o conforto que sonham um dia.
Com as bonecas poder brincar,
...... Pobres meninas da tia.
P.S.: Após ver uma reportagem sobre prostituição infantil no interior do Brasil.
Alma Perdida - Poema de Florbela Espanca
Há um dia
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